quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Aos africanos, sempre!



Guiné-Conacri
A quem pertence a bauxite da Guiné-Conacri?
Nenhum país é tão rico em bauxite como a pequena Guiné-Conacri. Com uma nova lei, o governo quer agora salvaguardar até 30% das ações das minas do país, contra a vontade dos investidores estrangeiros.

 Guiné-Conacri - mina em Débélé




Com um sorriso de orgulho no rosto, o supervisor de turnos James Camara mostra uma das escavadoras que penetra na terra com um cilindro de corte, uma espécie de pá rotativa.

A escavadora consegue realizar três tarefas de uma só vez: apanha pedras do chão, esmaga-as e carrega-as directamente para um camião. É possível extrair até 750 toneladas de rochas por hora, diz Camara. "Dá para carregar completamente até sete camiões!", sublinha.

Os camiões são do grupo Rusal, de Moscovo, ao qual pertencem as minas de Balandou em Débélé, uma pequena cidade em Kindia, no oeste da Guiné-Conacri. À volta da mina a céu aberto crescem manguezais e mangueiras. A terra é vermelha e cheira a queimado. Dentro esconde-se o maior tesouro do país: o minério de alumínio bauxite.

 Mina em Débélé, Guiné-Conacri

Nenhuma indústria própria na Guiné-Conacri
Os carregamentos de bauxite são transportados por camiões até à estação de mercadorias. Daqui, o minério é levado em comboios de carga até à capital provincial, Kindia. E do porto de Conacri segue de navio para a Ucrânia. Aí, a partir da bauxite é produzido alumínio, que é exportado para todo o mundo. Na Guiné-Conacri, mesmo passados 53 anos após a independência, ainda não há uma indústria para transformar o tesouro da terra vermelha no cobiçado metal. Com a exportação da matéria prima, sem mais valias, a maior parte da riqueza da bauxite fica no exterior.

Com a nova lei de mineração, o país quer beneficiar no futuro mais do que atualmente com este negócio. A lei foi adotada em setembro de 2011 pelo Conselho Nacional de Transição. O objetivo é garantir a participação do Estado até 30% nas empresas de mineração, que obtêm grandes lucros com a mineração de bauxite e ferro.

Bauxite na Guiné-Conacri - o que sobra do boom?
No entanto, em termos legais isso não é nada fácil, uma vez que a maioria das minas pertencem a empresas estrangeiras.

O governo da Guiné-Conacri está em negociações com o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre como pode a nova lei ser implementada sem transgredir nenhuma lei internacional e sem afastar investidores estrangeiros.

Estes planos, porém, foram mal recebidos pelos investidores. Pavel Vassiliev, representante para África da empresa russa Rusal, considera que as empresas de extração são prejudicadas pela nova lei. "Por causa da crise mundial no setor do alumínio, vários investidores foram já forçados a deixar a Guiné-Conacry", diz Vassiliev.

Uma fração dos lucros da bauxite para as populações
Países vizinhos como a Serra Leoa e a Libéria já conseguiram uma participação maior na extração de recursos. Na Guiné-Conacri, no entanto, até agora pouco ficou da riqueza originada pelos recursos minerais. Na capital provincial, Kindia, que fica a menos de uma hora de carro das minas, vivem 200 mil pessoas. Mesmo de longe é possível ver as colinas verdes que enquadram a cidade.

Nos corredores que levam ao gabinete do presidente da autarquia local reina a escuridão porque não há eletricidade. Nos escritórios sentam-se funcionários já com idade avançada. Uma espessa camada de poeira cobre os arquivos.

Um acordo entre a Guiné-Conacri e os operadores das minas prevê que a Rusal faculte 0,01% dos lucros da sua produção de bauxite, isto é, cerca de um dólar por tonelada. Esse dinheiro deveria ir para a Câmara Municipal local, mas durante muito tempo nada chegou, diz o presidente da autarquia, Dramane Condé. "A culpa não é da Rusal. Em 2008, o exército chegou ao poder. E as pessoas não queriam que o dinheiro entrasse em canais não autorizados", explica. Por isso, a empresa esperou que as estruturas democráticas se estabelecessem para depois desbloquear os fundos. É o que está a acontecer agora. 

 Cerca de dois terços das reservas mundiais de bauxite encontram-se nos solos da Guiné-Conacri

Luta pela riqueza perdida
Enquanto isso, a Rusal envolve-se diretamente na região. Em 2012, a empresa disponibilizou 350 mil euros para fornecer eletricidade a duas aldeias. Uma delas foi Mambia, uma comunidade de pequenas casas de barro que fica a caminho das minas, na direção da capital, Conacri. Além da extração de bauxite, as pessoas aqui vivem principalmente da agricultura. As folhas verdes de mandioca brilham nos campos. "A Rusal construiu escolas, um centro de saúde e depois eletrificou a aldeia", diz o secretário-geral do município, Kandé Oumar Camara. "Isso ajudou muitos pequenos comerciantes a posicionar-se melhor", refere.


Com a nova lei, a Guiné-Conacri quer lucrar mais com a riqueza proveniente da extração da bauxite

No entanto, para muitos políticos isso não é suficiente. Defendem que uma parte maior dos lucros da extração de bauxite devia ficar no país. Se tudo correr como pretende o ministro responsável pelas Questões Estratégicas, Ousmane Kaba, a Rusal terá de abrir os cordões à bolsa. "Antes de mais, as minas pertencem à Guiné-Conacri", afirma. Por isso, atualmente há divergências com a Rusal. Segundo estudos preliminares, a empresa russa deveria transferir quase mil milhões de dólares para a Guiné-Conacri, por causa de pagamentos não efetuados. 


Bauxite para o desenvolvimento do país?
O maior problema para a Guiné-Conacry, no entanto, é que a lei não pode ser aplicada retroativamente. Os grandes negócios de recursos naturais dos últimos anos, altura em que as empresas estrangeiras ficaram com a maior fatia do bolo no negócio da bauxite, não serão afetados.

No futuro, a bauxite que será extraída das minas Balandou, em Débélé, e noutros lugares poderá contribuir mais do que no passado para o desenvolvimento da Guiné-Conacri. Se o governo guineense conseguir assegurar que as receitas da extração de matérias-primas não acabem em canais obscuros, então a nova lei da mineração terá valido a pena para a população da Guiné-Conacri.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Brasil perdido



Janot denuncia Temer, Joesley e mais 7 ao STF; presidente é acusado de organização criminosa e obstrução de Justiça
Os 7 são Eliseu Padilha, Moreira Franco, Geddel, Henrique Alves, Eduardo Cunha, Rocha Loures e Ricardo Saud. PGR já havia denunciado presidente por corrupção passiva, mas Câmara rejeitou.


Por Vladimir Netto, Renan Ramalho e Filipe Matoso, TV Globo e G1, Brasília
14/09/2017 17h37 Atualizado há menos de 1 minuto

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira (14) uma nova denúncia contra o presidente Michel Temer, desta vez pelos crimes de obstrução à Justiça e organização criminosa.
Outras oito pessoas são alvos da mesma denúncia (dois ministros, dois ex-ministros, dois ex-deputados, um empresário e um executivo). De acordo com o procurador, os políticos denunciados arrecadaram mais de R$ 587 milhões em propina.
O empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, e o executivo Ricardo Saud, ambos delatores da Operação Lava Jato, estão entre os denunciados, mas somente pelo crime de obstrução de Justiça.
LEIA TAMBÉM:
Eles tinham a garantia de que não seriam denunciados nem presos, mas Janot entendeu que houve descumprimento dos termos do acordo de delação premiada. Na última sexta, ao expedir mandado de prisão de Joesley, o ministro Edson Fachin, do STF, suspendeu os efeitos do acordo. Agora, o procurador-geral decidiu rescindir o compromisso, ressalvando que as provas obtidas a partir da colaboração dos delatores permanecem válidas.
O STF somente poderá analisar a denúncia contra Temer se a Câmara autorizar. Em agosto, a Câmara rejeitou a primeira denúncia de Janot contra Temer, por corrupção passiva.
Além de Temer, Joesley e Saud, também foram denunciados nesta quinta:
  • ELISEU PADILHA (PMDB-RS), ministro da Casa Civil
  • MOREIRA FRANCO (PMDB-RJ), ministro da Secretaria-Geral
  • EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), ex-deputado
  • HENRIQUE ALVES (PMDB-RN), ex-deputado e ex-ministro
  • GEDDEL VIEIRA LIMA (PMDB-BA), ex-ministro
  • RODRIGO ROCHA LOURES (PMDB-PR), ex-deputado e ex-assessor de Temer
Organização criminosa
Segundo Rodrigo Janot, Temer, Cunha, Henrique Alves, Geddel, Rocha Loures, Padilha e Moreira Franco, todos integrantes do PMDB, formaram um núcleo político para cometer crimes contra empresas e órgãos públicos. 

De acordo com a denúncia, os integrantes do suposto esquema receberam valores de propina que, somados, superam R$ 587,1 milhões, arrecadados de empresas e órgãos públicos, entre os quais ais Petrobras, Furnas, Caixa Econômica Federal, Ministério da Integração Nacional, Ministério da Agricultura, Secretaria de Aviação Civil e Câmara dos Deputados. 

"O esquema desenvolvido no âmbito desses órgãos permitiu que os ora denunciados recebessem, a título de propina, pelo menos R$ 587.101.098,481. Além disso, os crimes praticados pela organização geraram prejuízo também aos cofres públicos."
Rodrigo Janot afirmou na denúncia que “diversos elementos de prova” apontam que Michel Temer tinha o “papel central” na suposta organização criminosa. O chefe da PGR relata que, “ao entrar na base do governo Lula, mapeou, de pronto, as oportunidades na Petrobras. 

Janot reproduz trecho da delação do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró para ilustrar a suposta ascendência de Temer na apontada organização criminosa. “[...] em 2006 já havia a perspectiva de negócios grandes na Diretoria Internacional [da Petrobras], o que certamente já era do conhecimento do PMDB”, diz trecho da denúncia, referindo-se ao depoimento de Cerveró. 

A peça de denúncia destaca que Temer, Henrique Alves e Eduardo Cunha eram os responsáveis pela obtenção de espaços para o grupo político junto ao governo do PT. Segundo Janot, o poderio desse grupo vinha da influência que eles detinham sobre a bancada do PMDB na Câmara dos Deputados, “instrumentalizando-a para criar as condições necessárias ao bom posicionamento da organização criminosa". 

Obstrução de justiça
Na parte sobre obstrução às investigações, Janot afirma que os resultados da Lava Jato geraram "preocupação" nos integrantes da organização criminosa, "em especial pertencentes ao núcleo político e econômico do grupo do chamado 'PMDB da Câmara dos Deputados'." 

O "temor", diz Janot, fez com que a organização criminosa elaborasse "vários planos e ações para obstrução" da Java Jato, com utilização "desvirtuada" das funções e prerrogativas do Poder Legislativo, assim como "cooptação e tentativa de cooptação de membros do Poder Judiciário". 

Rodrigo Janot afirma que o grupo buscou a desestruturação, "por vingança e precaução", de futuras atuações do Ministério Público articulando, por exemplo, a aprovação da lei de abuso de autoridade. 

"Ao denunciado Michel Temer imputa-se também o crime de embaraço às investigações relativas ao crime de organização criminosa, em concurso com Joesley Batista e Ricardo Saud, por ter o atual presidente da República instigado os empresários a pagarem vantagens indevidas."
Entre as ações que configuram obstrução, Janot cita o "pacto de silêncio" entre Funaro e Joesley Batista para que eles não fechassem acordo de delação. Funaro é apontado como operador de propinas do PMDB. Os dois se tornaram delatores. 

Janot também diz que Temer "instigou" Joesley a pagar "vantagens indevidas" a Eduardo Cunha para que o ex-deputado não feche acordo delação. 

"Ao denunciado Michel Temer imputa-se também o crime de embaraço às investigações relativas ao crime de organização criminosa, em concurso com Joesley Batista e Ricardo Saud, por ter o atual presidente da República instigado os empresários a pagarem vantagens indevidas a Lúcio Funaro [apontado como operador financeiro de políticos do PMDB] e Eduardo Cunha, com a finalidade de impedir estes últimos de firmarem acordo de colaboração", diz o texto da denúncia.
A denúncia aponta ainda que os nove acusados utilizaram dois "mecanismos de ocultação e dissimulação" de dinheiro de origem ilícita:
  • transferências bancárias internacionais, na maioria das vezes com o mascaramento em três ou mais níveis – ou seja, movimentações sucessivas com o objetivo de distanciar a origem dos valores.
  • aquisição de instituição financeira, com sede no exterior, para tentar controlar e ludibriar as práticas de "compliance" (normas de ética, conduta e boa governança em empresas) e, desta forma, dificultar o trabalho dos investigadores.
Segunda denúncia contra Temer
Esta é a segunda acusação formal de Janot contra Temer. Na primeira, apresentada em junho, o presidente foi acusado do crime de corrupção passiva.
Mas a Câmara rejeitou o prosseguimento do processo para o Supremo Tribunal Federal (relembre no vídeo abaixo). 

Plenário da Câmara rejeita denúncia contra Temer

A nova denúncia contra Temer é apresentada depois de a PGR abrir um processo de revisão da delação premiada de executivos da JBS, cujos benefícios foram temporariamente suspensos em razão do fato de o Ministério Público Federal entender que pode ter havido omissão nas informações. Nesta quinta, a Procuradoria Geral da República anunciou que o acordo de colaboração premiada foi rescindido

A defesa de Temer chegou a pedir ao STF o afastamento de Janot de investigações contra ele e também a suspensão de uma nova denúncia, mas o ministro Edson Fachin, a quem cabe a decisão, negou os pedidos. 

Temer, então, recorreu ao plenário da Corte, mas o STF manteve Janot à frente das investigações

A denúncia desta quinta foi protocolada a poucos dias de Janot deixar o cargo e, caso tenha prosseguimento no STF, passará a ser conduzida por Raquel Dogde, indicada para o comando da PGR por Temer. Ela toma posse no próximo dia 18 de setembro. 

Tramitação
Assim como na primeira denúncia, como o alvo é o presidente da República, a Constituição determina que o andamento do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) depende de autorização de pelo menos 342 dos 513 deputados federais. 

Na Câmara, a nova denúncia deve seguir a mesma tramitação da primeira:
>> STF aciona a Câmara - Após o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público, a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, envia à Câmara uma solicitação para a instauração do processo. Cabe ao presidente da Câmara receber o pedido, notificar o acusado e despachar o documento para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa.
>> Prazo para a defesa - A partir da notificação, a defesa de Temer tem até dez sessões do plenário da Câmara para enviar os argumentos, se quiser.
Para a contagem do prazo, é levada em consideração qualquer sessão de plenário, seja de votação ou de debate, desde que haja quórum mínimo para abertura (51 deputados presentes). Se houver mais de uma sessão no dia, apenas uma será validada. Não são computadas as sessões solenes e as comissões gerais.
>> CCJ analisa - Assim que a defesa entregar as alegações, o regimento determina que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) terá prazo de até cinco sessões do plenário para se manifestar sobre a denúncia encaminhada pela Procuradoria Geral da República (PGR).
Nesse período, o relator a ser designado pelo presidente da CCJ deverá apresentar um parecer, no qual se manifestará, concordando ou não com o prosseguimento da denúncia.
Os membros da CCJ poderão pedir vista do processo (mais tempo para análise) por duas sessões plenárias antes de discutir e votar o parecer, que será pelo deferimento ou indeferimento do pedido de autorização para instauração de processo.
Antes de ser votado no plenário, o parecer da CCJ terá de ser lido durante o expediente de uma sessão, publicado no "Diário da Câmara" e incluído na ordem do dia da sessão seguinte à do recebimento pela mesa diretora da Câmara.
O regimento não define quando o presidente da CCJ deverá escolher o relator, mas o deputado Rodrigo Pacheco (PMDB-MG) poderá indicar qualquer um dos outros 65 membros titulares da comissão.
>> Decisão pelo plenário - O parecer discutido na comissão é incluído na pauta de votação do plenário principal da Câmara na sessão seguinte deo recebimento pela Mesa Diretora, depois da apreciação pela CCJ.
Após discussão, o relatório será submetido a votação nominal, pelo processo de chamada dos deputados. O regimento define que a chamada dos nomes deve ser feita alternadamente, dos estados da região Norte para os da região Sul e vice-versa.
Os nomes serão enunciados, em voz alta, por um dos secretários da Casa. Os deputados levantarão de suas cadeiras e responderão "sim", "não" ou "abstenção", assim como na votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
>> Aprovação ou rejeição da denúncia
  • Aprovação - A denúncia seguirá para o STF se tiver o apoio de pelo menos dois terços dos 513 deputados, ou seja, 342 votos. Se ficar admitida a acusação, após a aprovação do parecer, será autorizada a instauração do processo no Poder Judiciário. No STF, os 11 ministros votam para decidir se o presidente Michel Temer vira réu. Nesse caso, Temer é afastado do cargo por 180 dias. O presidente só perde o cargo defintivamente se for condenado pelo Supremo. Quem assume o cargo é presidente da Câmara, que convoca eleições indiretas em um mês. Segundo a Constituição, o novo presidente da República seria escolhido pelo voto de deputados e senadores.
  • Rejeição - No caso de rejeição da denúncia pela Câmara, o efeito ainda é incerto, segundo a assessoria de imprensa do STF, e pode ser definido pelos ministros ao analisar esse caso específico. Se a denúncia for rejeitada pelos deputados, o Supremo fica impedido de dar andamento à ação, que será suspensa e só será retomada depois que Temer deixar a Presidência.